05-Set-2010

 

QUARTETO 1111 PDF Imprimir e-mail
10-Mar-2009

-MÚSICAS DA MINHA ESTANTE-

JOSÉ ALBERTO VASCO

 

QUARTETO 1111

A LENDA DE EL-REI D. SEBASTIÃO

 

              De entre os discos que incorporam as Músicas da Minha Estante escolhi este mês um histórico E.P. em vinil, surgido em 1967, numa época em que a música popular urbana portuguesa lutava com enormes dificuldades para se impôr junto da crítica e do nosso mercado discográfico. Trata-se de A Lenda de El-Rei D. Sebastião, uma produção artística do Quarteto 1111, agrupamento pop que surgira no mesmíssimo ano no Estoril, a partir de uma lógica evolução criativa do Conjunto Mistério. Essa evolução ter-se-ia começado a cimentar cerca de um ano antes, altura em que para esta última banda entrara o já então bastante carismático vocalista e teclista José Cid, que anteriormente integrava, juntamente com José Niza, Proença de Carvalho e Rui Ressurreição, o Conjunto do Orfeão, banda conimbricense de declarada inspiração jazzística.

José Cid era já naquela época uma figura a ter muito em conta na nossa música popular, assumindo-se como um dos introdutores do rock em Portugal, quando em 1956 fundara em Coimbra a primeira banda portuguesa dessa corrente musical: os Babies, cuja imagem e cujo repertório eram moldados às de agrupamentos pioneiros do rock a nível mundial, como Bill Halley & The Comets, Chuck Berry ou Muddy Watters. José Cid fora também (ele, Jorge Lima Barreto e Marcos Resende) um dos primeiros portugueses a ter um sintetizador (que então em Portugal apenas se vendia no Porto, na Casa Ruvina) e a importar a música de bandas como os Shadows e os Beatles para o nosso país, género de atitude que incutiria nos seus novos companheiros do Conjunto Mistério: o baterista Miguel Artur da Silveira, o guitarrista António Moniz Pereira e o baixista Jorge Moniz Pereira, junto aos quais seguidamente fundaria o Quarteto 1111. A nova banda começaria então a ensaiar na garagem da casa de Miguel, no Estoril, em busca de criar algo de novo na música ligeira portuguesa. Esse “algo de novo” viria a ser uma notável canção, intitulada A Lenda de El-Rei D. Sebastião, que em Agosto de 1967 cometeria a proeza de ser o primeiro (e único) original escrito e interpretado em português a ser divulgado no criterioso programa Em Órbita, que o relevante radialista Jorge Gil fundara no início daquela década no Rádio Clube Português e que fora o indiscutível introdutor radiofónico da pop music em Portugal. Essa histórica audição de um original português num programa até aquela ocasião exclusivamente dedicado à música anglo-saxónica foi então acompanhada pela leitura de um solene e não menos histórico texto introdutivo, lido por Cândido Mota, em que muito justamente se enalteciam a autenticidade, a coragem, a inovação e o poder criativo e interpretativo que aquela canção em si mesma transportava e alimentava.

            O inesperado sucesso do E.P. A Lenda de El-Rei D. Sebastião surpreendeu mesmo os próprios elementos da banda, mas embora esse êxito tivesse sido essencialmente motivado pela canção que intitulava o disco não se deveu apenas a esse tema. A face B do disco incluia o divertido e àquela época arrojado tema instrumental Fantasma Pop, que utilizava uma batida e um sense of humor então inabitual na nossa música ligeira, e Gente, uma balada muito bem construída, que permitia constatar a excelente qualidade técnica dos elementos daquela formação inicial do Quarteto 1111. Contudo, a parte forte deste E.P. em vinil residia muito naturalmente na sua face A, nomeadamente no muito bem sucedido tema Os Faunos, que reportava uma arrojada assumpção portuguesa do psicadelismo britânico, sem quaisquer riscos de identidade e qualidade, atingindo um nível muito acima do que então vulgarmente se produzia em Portugal. E neste caso será curioso aqui referir que era este o tema em que José Cid e os seus companheiros mais acreditavem como possível portador de sucesso do disco junto da crítica e do público. Porém, fora precisamente em A Lenda de El-Rei D. Sebastião que o Quarteto 1111 depositara o melhor de si mesmo e da própria música popular urbana portuguesa, penetrando muito declaradamente no imaginário e na mitologia nacionais, trabalhando essa sua conceptualização musical sobre um dos temas mais fundados no património cultural português. Uma parte do já referido texto lido por Cândido Mota no Em Órbita resumia com particular acerto e felicidade o que tornava aquele tema uma autêntica preciosidade da nossa cultura musical, dizendo o seguinte: O que neste trecho impressiona mais, o que nele se inclui de mais nitidamente inédito, é que em cima de uma melodia de encantadora simplicidade, há uma história singela, popular, portuguesa, dita em versos directos, certeiros, desenfeitados. Conta-se uma história, uma lenda. Como lenda que é trazida até hoje pela herança popular, pertence ao folclore, ao património mais íntimo da comunidade e dos costumes do nosso país. Depois, é um tema eterno, de criação nacional e de validade perene e universal. É um Sebastianismo colectivo que na lenda se retrata É a ideologia negativista dos que têm uma crença irracional em coisas, em valores e em poderes que não existem, dos que se deixam enganar pelos falsos Messias do oportunismo e da mistificação”. Depois de ler estas palavras torna-se completamente inútil delinear qualquer outro juízo crítico sobre A Lenda de El-Rei D. Sebastião do Quarteto 1111. O que há a fazer é o que eu mesmo faço muitas vezes: chegar-me junto às Músicas da Minha Estante, retirar esse belo disco, mirar mais uma vez a sua tão discreta como eficiente capa, puxar para fora esse fantástico objecto discográfico em vinil, limpar religiosamente as suas espiras com a habitual esponjinha, colocá-lo meticulosamente no prato do gira-discos e pô-lo a tocar... Daí para a frente, caros amigos e leitores, garanto que esta lenda se transforma quase imediatamente em magia, pura magia...


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