-MÚSICAS DA MINHA ESTANTE-
JOSÉ ALBERTO VASCO
CECILIA BARTOLI / MARC MINKOWSKI / LES MUSICIENS DU LOUVRE
OPERA PROIBITA
A mezzo-soprano italiana Cecília Bartoli, nascida em Roma, em 1966, é uma notável e apreciada cantora lírica, q ue alcançou notoriedade a nível mundial ainda antes dos seus vinte anos, facto raríssimo naquela exigente contextualização artística. Tendo começado por estudar canto na reputadíssima Accademia Nazionale di Santa Cecilia, sedeada na sua cidade natal, Cecilia Bartoli, filha de dois professores de música, desde muito cedo se cotou entre as mais qualificadas e prestigiadas intérpretes de ópera e música barroca, actuando frequentemente nas mais importantes salas de concerto de todo o mundo.
A sua classe e a sua veia interpretativa proporcionaram-lhe logo em início de carreira prestigiosas e bem acolhidas colaborações com maestros como Herbert von Karajan, Daniel Barenboim e Nikolaus Harnoncourt, primeiros de uma extensa lista em que são raros os grandes maestros das últimas décadas em falta... De intérprete quase incomparável nas óperas de Mozart e Rossini, Cecilia Bartoli passou a dedicar nos últimos anos uma maior atenção e empenho na interpretação de música antiga, área em que também colaborou já com os mais destacados e aclamados agrupamentos (The Orchestra of the Age of Enlightenment, Concentus Musicus Wien, Il Giardino Armonico, Akademie für Alte Musik Berlin, The Academy of Ancient Music, Les Arts Florissants e Freiburger Barockorchester, entre outros). O seu invejável e categórico currículo tem-se também cimentado na área discográfica, através de lendárias produções em disco como o seu The Vivaldi Album (2000), o seu Gluck: Italian Arias (2001) ou o seu The Salieri Album (2003), todos eles autênticos sucessos em termos qualitativos, críticos e de vendas, ajudando a transformar a cantora numa verdadeira estrela do mundo artístico, ao nível de qualquer pop star que se preze...
No Outono de 2005, Cecilia Bartoli voltaria a concretizar um notável e histórico projecto discográfico, Opera Proibita, que rapidamente lhe proporcionou novo êxito, alcandorando-se mesmo aos primeiros lugares das tabelas de vendas em vários países e conseguindo várias distinções a nível mundial, embora nele se mantivesse o elevado nível artístico a que a cantora sempre habituou o seu público, sem quaisquer cedências que lhe reduzissem a inquestionável qualidade. Em Opera Proibita, Cecilia Bartoli fez-se acompanhar por outra qualificada e inexcedível orquestra de câmara, a Les Musiciens du Louvre – Grenoble, fundada em 1982 pelo fagotista e maestro Marc Minkowski, garantindo logo à partida a excelência instrumental do projecto. Em Opera Proibita, a magistral intérprete incluiu árias de Alessandro Scarlatti, Antonio Caldara e George Frideric Händel, todas elas da primeira década do século XVIII, época que incluiu dois jubileus e durante a qual a Santa Sé proibiu qualquer representação operática que se pretendesse apresentar em Roma. Contudo, durante esse período, era permitido que esse género musical fosse interpretado em salões de príncipes e cardeais, sob a forma de oratórias, melodrama sacro cuja interpretação subtilmente escapava às proibições eclesiásticas. Característico dessa época era também o facto de a mesmíssima Santa Sé não autorizar as mulheres a actuar em palco, sendo então o seu lugar ocupado pelos castrati, homens cujo registo vocal abrangia um largo espectro entre o tom mais grave e o mais agudo, posicionamento interpretativo de extrema dificuldade para qualquer cantora feminina, que Cecilia Bartoli consegue neste disco evidentemente superar, sem quaisquer contemplações... Foi essa fascinante e subliminar ambiência de uma época de rude interdição eclesiástica na sua cidade natal que Cecilia Bartoli pretendeu enaltecer neste seu fabuloso e irresistível disco, fazendo-o com uma mestria digna dos maiores encómios e da mais profunda apreciação, numa produção discográfica que inclui algumas árias nela gravadas pela primeira vez em disco. A sublime e motivadora exposição de árias tão excepcionais e tão enleantemente interpretadas como Un Pensiero Nemico di Pace, escrita por um jovem Händel, então ainda com dezanove anos de idade, All’arme Sì Accesi Guerrieri, de um então já muito pujante Alessandro Scarlatti ou Sì Piangete Pupille Dolenti, de um Antonio Caldara cuja sabedoria compositiva raramente tem sido reconhecida, transforma muito claramente esta Opera Proibita numa das mais conseguidas e sedutoras gravações de sempre no campo da música culta, cuja audição, mesmo na mais pacata e ascética sala de estar facilmente conduz o seu ouvinte à exclamação de alguns bravos!, tamanha é a sua qualidade. É claro que esta Opera Proibita é uma das principais vedetas entre as Músicas da Minha Estante, cuja audição facilmente transforma o meu sofá numa cadeirinha da plateia do vienense Musikverein, do milanês La Scala ou do londrino Covent Garden (com a vantagem de não ter na sala nenhum daqueles entusiásticos imbecis que passam todos os concertos a tossir...)!
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