05-Set-2010

 

SUN RA NUITS DE LA FONDATION MAEGHT PDF Imprimir e-mail
16-Jun-2007

 

-MÚSICAS DA MINHA ESTANTE-

JOSÉ ALBERTO VASCO

 

SUN RA

NUITS DE LA FONDATION MAEGHT

 Se há coisas de que me posso gabar, uma das mais importantes foi a de ter sido o introdutor do free jazz em Alcobaça, no início da década de 1970. Posso desde já esclarecer que, tal como uma vez escreveu o Miguel Esteves Cardoso: comecei a ouvir jazz deixando de lado o peixe miúdo e atirando-me logo aos tubarões, o que muito clara e correctamente significa que o fiz começando mesmo pelo free jazz, revolucionamento que no final da década anterior tinha estética e radicalmente contestado quase todo o passado histórico da chamada grande música negra, abrindo-a para sempre a novos e imparáveis horizontes. Devo ainda aqui esclarecer que essa minha vivencial adesão ao free jazz foi nitidamente influenciada por um histórico livro publicado pela Editorial Inova em Setembro de 1972, que poucos meses depois comprei na Feira do Livro de Leiria. Esse livro chamava-se Revolução do Jazz e fora escrito pelo desassombrado Jorge Lima Barreto, que eu alguns anos depois viria a conhecer pessoalmente, tendo até tido a honra de organizar alguns concertos com o duo Telectu, formado pelo Jorge e pelo Vítor Rua. Os músicos de jazz que inicialmente traçaram e influenciaram a criação do free jazz foram agrupamentos como os Art Ensemble of Chicago, o pianista Cecil Taylor, os saxofonistas Archie Shepp, Albert Ayler e Ornette Coleman e o teclista e chefe de orquestra Sun Ra, que logo ganharam o seu lugar no pódio dos meus heróis musicais, tendo mesmo assistido a concertos ao vivo de quase todos eles, exceptuando Albert Ayler, que fora barbaramente assassinado nos EUA em 1970.

 

Antes de aqueles músicos terem começado a actuar em Portugal, facto que na década seguinte se ficaria a dever ao espírito de abertura de Madalena Azeredo Perdigão e da Fundação Calouste Gulbenkian quando fundaram aquele que continua a ser para mim o melhor festival de jazz realizado no nosso país: o Jazz em Agosto, a sua música chegou às discotecas do nosso país pela mão de uma editora subsidiária da RCA, a Shandar, distribuindo em Portugal discos que eternizavam actuações de muitos daqueles históricos vultos na simpática cidade francesa de St. Paul de Vence, nas Nuits de la Fondation Maeght, festival a cuja imagem foi criado o Jazz em Agosto. De entre aquelas míticas e exponenciais figuras do free jazz sempre manifestei especial predilecção por Sun Ra e pela sua rara e enigmática intuição artística, clara e dualisticamente influenciada pela tradição oriental e pela tradição afro-americana, enquadrada numa característica devoção pelo espaço sideral 
Entre os lugares ocupados pela discografia de Sun Ra nas Músicas da Minha Estante, ainda hoje nutro especial afeição por um LP gravado ao vivo em 1970 no festival que o intitula: Nuits de la Fondation Maeght. Como chefe de orquestra e líder de uma big band que a seu modo se tornou legítima herdeira da Duke Ellington Orchestra, Sun Ra foi um dos protagonistas do radical corte que o free fez com o passado do jazz, nomeadamente pela sua visão muito característica do swing, que o free transformou de elemento marcante em puro acessório da sua linguagem. Comportando-se como um autêntico Nietsche do jazz orquestral, Sun Ra radicalizou totalmente a sua sonoridade e a sua ambiência, recuperando a improvisação total do estilo new orleans, que impregnou de elementos electrónicos, criando uma vertigem sonora irresistível em que se aliam a tradição oral e a cacofonia percutiva, em contextualizações afro-americanas servidas por apuradas técnicas da orquestração ocidental. Nuits de La Fondation Maeght é um disco de puro Sun Ra, em que a sua mitologia celestial se começa por mostrar logo no tema de abertura, Enlightment, que é uma rotunda ironia sobre a vivência artística da Broadway, de onde a Sun Ra Arkestra (que também utilizava designações como Solar Arkestra ou Myth Science Arkestra) evolui para temas como Star Gazers e Shadow World, onde Sun Ra, toda a sua orquestra e todos os seus geniais e não menos míticos solistas (Marshall Allen, John Gilmore, Pat Patrick, Alan Silva) criam notável, inspirado e libertador jazz em cada instante. Contudo, foi à face B desse disco, completamente preenchida com uma faixa, que calhou, muito justificadamente, fazer história na História do Jazz. Essa faixa chama-se The Cosmic Explorer e toda ela é um imenso e fascinante solo de Sun Ra num instrumento então recentemente surgido e de que o genial músico free foi um dos primeiros utilizadores reconhecidos: o sintetizador Moog. Ainda hoje, The Cosmic Explorer é uma faixa polémica em termos de classificação, que ondeia entre os que a definem como jazz e os que defendem que nela não existe qualquer sentido estético conotável com jazz, havendo mesmo os que a criticam como não sendo música… No fundo, o grande encanto e o maior sinal de genialidade de The Cosmic Explorer é o facto de ela se poder enquadrar como sendo uma inspirada viagem criativa de Sun Ra pelo espaço sideral e pela grande música do século XX pilotando o seu moog synthesizer em alta velocidade. Ainda hoje me rendo à magia dessa interpretação e à magnificência da sonoridade idealizada e produzida por Sun Ra e pela sua Arkestra, que além dos seus músicos incluía cantoras e bailarinas que evoluiam graciosamente em palco vestidas de sacerdotiza árabe, colocando também os seus espectadores dentro de um autêntico sonho em que a fantasia se misturava com a realidade…
Pois é. Sun Ra e estas suas Nuits de la Fondation Maeght ocupam um dos lugares cimeiros entre as Músicas da Minha Estante e a minha paixão musical. Tal como o seu memorável concerto a que assisti em Lisboa, nos Jardins da Fundação Gulbenkian, no primeiro sábado de Agosto de 1985,. na edição desse ano do Jazz em Agosto. Recordo-me perfeitamente do instante de pura magia em que Sun Ra entrou em palco, secundado por toda a orquestra e pelas suas bailarinas, também ele dançando enquanto os seus músicos seduziam o público numa arrojada improvisação colectiva. Envergando também ele um fato de sacerdote oriental e trazendo colocada na cabeça uma peculiar antena, Sun Ra dirigiu-se balanceando para o seu piano, sentou-se e começou a tocar e a conduzir a sua orquestra de um modo que durante cerca de duas horas ali vivi um verdadeiro sonho em que fui acompanhado pelas largas centenas de pessoas que superlotavam aquele espaço. Parece que ainda hoje me sinto lá, vendo e ouvindo Sun Ra, um dos meus grandes heróis da arte musical!




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