05-Set-2010

 

JOSÉ AFONSO - CORO DOS TRIBUNAIS PDF Imprimir e-mail
14-Abr-2007

-MÚSICAS DA MINHA ESTANTE-
JOSÉ ALBERTO VASCO

JOSÉ AFONSO
CORO DOS TRIBUNAIS

José Alberto Vasco

Num período em que comemoramos o 33º aniversário do 25 de Abril lembrei-me de homenagear nesta rubrica o inesquecível cantor, poeta e compositor José Afonso, recordando um dos seus discos menos (re)conhecidos: Coro dos Tribunais. Esse foi o primeiro disco editado por José Afonso após a Revolução dos Cravos e a verdade é que o reconhecimento dessa produção discográfica de José Afonso acabou por ser altamente prejudicado pelo facto daquele disco ter sido lançado numa época em que tudo corria muito velozmente neste país… O mesmo problema afectou na mesma época o primeiro disco editado por Fausto após o 25 de Abril: P’ró Que Der e Vier, que até 25 de Abril de 1974 estava a ser gravado em Madrid. Tendo-se também passado o mesmo com o álbum discográfico À Queima Roupa, primeiro disco editado por Sérgio Godinho após o 25 de Abril, e que até àquela data estava a ser gravado em Vancouver, no Canadá. Esse revolucionamento político em Portugal e o decorrente final da censura prévia às produções culturais, conduziram toda a arte portuguesa a uma necessária e imprescindível abertura em termos temáticos e literários, facto que no caso daqueles discos induziu os seus autores a radicais alterações no enquadramento das obras que então estavam produzindo. Essas alterações acabaram por prejudicar a contextualização daqueles discos, que acabaram por incluir temas compostos antes da Revolução de Abril e temas compostos depois daquele que foi o mais importante acontecimento político português do século XX, perdendo muito em termos de homogeneidade, o que, contudo, não evitou que ambos incluíssem inesquecíveis temas da música popular urbana portuguesa daquela época…

Coro dos Tribunais foi gravado por José Afonso e pelos músicos que então o acompanharam em Londres, durante os meses de Novembro e Dezembro de 1974. Nessa época José Afonso era publicamente reconhecido e aclamado como um autêntico herói nacional, não só pelos seus conhecidos antecedentes de lutador contra o opressivo e retrógrado regime político de Salazar e Caetano, mas também pelo histórico facto de uma das suas músicas, Grândola Vila Morena, ter sido uma espécie de hino da oposição àquele regime político antes do 25 de Abril e de ter também servido de senha radiofónica para o arranque das tropas revoltosas que naquela data devolveram a liberdade aos portugueses. No âmbito da produção discográfica de José Afonso, Coro dos Tribunais sucedeu ao seu notável disco Cantigas do Maio, de 1971 (que eu, tal como muitos outros observadores, considero o melhor disco de sempre da música popular urbana portuguesa), e ao emblemático Venham Mais Cinco, de 1973, discos em que José Afonso se afastava artisticamente de anteriores cânones de inspiração estalinista, enveredando por uma fascinante via surrealista em termos poéticos e abrindo a sua música a sonoridades mais conectadas com o jazz e com o rock. E a este respeito não posso deixar de aqui recordar uma vibrante discussão a que assisti no final de 1973 em Alcobaça. Essa discussão decorreu no então Esgoto’s Place, mítico local que cerca de uma década e meia depois se transformaria num dos locais de culto da música nacional, o Bar Ben (Almanzor). Estava-se ainda antes do 25 de Abril em termos nacionais, mas a verdade é que nessa data já a Revolução Portuguesa havia chegado àquele local de Alcobaça onde nos juntávamos para conversar livremente sobre política e outras actividades então reprimidas, tocar música e ouvir tudo o que de novo nos ia chegando do exterior: do rock de vanguarda ao free jazz, além de outros interessantes acontecimentos que não são para aqui chamados…. A discussão que relembro tinha precisamente por tema o recente lançamento do álbum Venham Mais Cinco de José Afonso e como intervenientes dois jovens alcobacenses àquela época claramente seduzidos pelo estalinismo: um como simpatizante do PCP (Partido Comunista Português) e outro como militante da OCMLP (Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa). O primeiro deles mantém ainda hoje as mesmíssimas opções políticas e o segundo é hoje um conhecido militante do PSD, após ter percorrido alguns desvios de ordem trotzquista e centrista. Eu, estava então entre os dois, algo toldado pelo álcool (era então advertidamente seduzido pela loiríssima Sagres), e já então assumira o meu próprio desvio, abandonando a social-democracia e lançando-me nos braços de um subtil trotzquismo que acabaria por posteriormente renegar… Quanto à tal discussão, a sua vítima era precisamente a produção artística de José Afonso, criticada por um deles pela sua opção pelo formalismo e pelo outro pela sua opção pelo surrealismo, evidentes desde Cantigas do Maio. A minha subtil intervenção nesse vibrante debate apenas se deveu à envergonhada defesa de Venham Mais Cinco e de dois temas desse disco, os preciosos A Formiga no Carreiro e Gastão Era Perfeito, atitude que então me valeu uma das primeiras palmadas estalinistas da minha vida e uma forte reprimenda de um dos intervenientes, que elogiava alto e bom som a música de Tino Flores (aquele cantor do Quem Não Teme o Mar Não Teme os Patrões…) evidenciando que essa música é que era directamente compreendida pelos trabalhadores e defendia os seus interesses de classe, enquanto, segundo ele, José Afonso enveredara por um eruditismo que afastara a sua música das massas populares. Felizmente, o futuro acabaria por me dar razão, embora o Tino Flores ainda continue vivinho da costa e a cantar para os amigos…
            Regressando então ao Coro dos Tribunais de José Afonso, a primeira novidade nele alardeada era a substituição do bem sucedido responsável pelos arranjos e pela direcção musical dos seus dois anteriores discos: José Mário Branco. Quem o substituiu nessas funções junto de José Afonso foi Fausto, que participou também nesse disco tocando guitarra. Junto a José Afonso manteve-se então o percussionista francês Michel de Laporte, tendo Vitorino Salomé sido chamado a colaborar nesse disco como teclista. A ficha técnica de Coro dos Tribunais regista ainda a participação como cantores e guitarristas de Adriano Correia de Oliveira, Carlos Alberto Moniz e José Niza (também produtor do disco), além do próprio José Afonso. Assinalável foi também o trabalho de José Brandão como responsável pelo marcante grafismo da capa daquele disco, que contou também com a (não totalmente bem sucedida) arte de Bob Harper como engenheiro de som
           Quanto à música propriamente dita, Coro dos Tribunais registava a interessante mas não muito conseguida novidade de José Afonso nele musicar dois poemas de Bertold Brecht em versão portuguesa de Luiz Francisco Rebelo (Coro dos Tribunais e Eu Marchava de Dia e de Noite). Os temas mais notáveis e melhor sucedidos de Coro dos Tribunais voltariam a ser os de inspiração surrealista (A Presença das Formigas, Tenho Um Primo Convexo, Ailé!Ailé!, O Homem Voltou e Não Seremos Pais Incógnitos), restando à maioria dos de inspiração política nele incluídos o papel de desequilibrar a balança para o pior, no sentido artístico, deste disco. Contudo, acabaria por ser um desses temas de inspiração política a receber merecidos louros como tema mais perene e melhor sucedido em termos de aceitação pública, transformando-se mesmo num dos novos hinos populares saídos da Revolução de Abril. Chamava-se O Que Faz Falta e além da sua irresistível cadência rítmica originou um dos refrões mais idolatrados e cantados de toda a produção musical de José Afonso: O Que Faz Falta é Avisar a Malta/ O Que Faz Falta/O que Faz Falta é Acordar a Malta/ O Que Faz Falta… E a verdade, caros visitantes e leitores destas Músicas da Minha Estante, é que também o mito do eterno retorno de Nietzsche parece ter assentado definitivamente praça na minha estante e não posso deixar de aqui recordar a vivencial experiência de ter assistido, ao vivo e a cores, a uma notável versão rock desta inesquecível e marcante canção de José Afonso. Essa memorável versão rock de O Que Faz Falta foi precisamente a última música tocada pelos Ex-Votos (banda ainda hoje liderada por Zé Leonel, que foi o primeiro vocalista dos Xutos & Pontapés) no concerto que na noite de 28 de Fevereiro de 1998 encerrou definitivamente os maravilhosos anos em que o alcobacense Bar Ben se notabilizou como local de culto da nova música portuguesa. Também por esse motivo, este Coro dos Tribunais de José Afonso continua a ocupar um lugar tão importante na minha estante…

                                                                                  José Alberto Vasco




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