| JOSÉ AFONSO - CORO DOS TRIBUNAIS |
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| 14-Abr-2007 | ||||
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José Alberto Vasco Num período em que comemoramos o 33º aniversário do 25 de Abril lembrei-me de homenagear nesta rubrica o inesquecível cantor, poeta e compositor José Afonso, recordando um dos seus discos menos (re)conhecidos: Coro dos Tribunais. Esse foi o primeiro disco editado por José Afonso após a Revolução dos Cravos e a verdade é que o reconhecimento dessa produção discográfica de José Afonso acabou por ser altamente prejudicado pelo facto daquele disco ter sido lançado numa época em que tudo corria muito velozmente neste país… O mesmo problema afectou na mesma época o primeiro disco editado por Fausto após o 25 de Abril: P’ró Que Der e Vier, que até 25 de Abril de 1974 estava a ser gravado em Madrid. Tendo-se também passado o mesmo com o álbum discográfico À Queima Roupa, primeiro disco editado por Sérgio Godinho após o 25 de Abril, e que até àquela data estava a ser gravado em Vancouver, no Canadá. Esse revolucionamento político em Portugal e o decorrente final da censura prévia às produções culturais, conduziram toda a arte portuguesa a uma necessária e imprescindível abertura em termos temáticos e literários, facto que no caso daqueles discos induziu os seus autores a radicais alterações no enquadramento das obras que então estavam produzindo. Essas alterações acabaram por prejudicar a contextualização daqueles discos, que acabaram por incluir temas compostos antes da Revolução de Abril e temas compostos depois daquele que foi o mais importante acontecimento político português do século XX, perdendo muito em termos de homogeneidade, o que, contudo, não evitou que ambos incluíssem inesquecíveis temas da música popular urbana portuguesa daquela época… Coro dos Tribunais foi gravado por José Afonso e pelos músicos que então o acompanharam em Londres, durante os meses de Novembro e Dezembro de 1974. Nessa época José Afonso era publicamente reconhecido e aclamado como um autêntico herói nacional, não só pelos seus conhecidos antecedentes de lutador contra o opressivo e retrógrado regime político de Salazar e Caetano, mas também pelo histórico facto de uma das suas músicas, Grândola Vila Morena, ter sido uma espécie de hino da oposição àquele regime político antes do 25 de Abril e de ter também servido de senha radiofónica para o arranque das tropas revoltosas que naquela data devolveram a liberdade aos portugueses. No âmbito da produção discográfica de José Afonso, Coro dos Tribunais sucedeu ao seu notável disco Cantigas do Maio, de 1971 (que eu, tal como muitos outros observadores, considero o melhor disco de sempre da música popular urbana portuguesa), e ao emblemático Venham Mais Cinco, de 1973, discos em que José Afonso se afastava artisticamente de anteriores cânones de inspiração estalinista, enveredando por uma fascinante via surrealista em termos poéticos e abrindo a sua música a sonoridades mais conectadas com o jazz e com o rock. E a este respeito não posso deixar de aqui recordar uma vibrante discussão a que assisti no final de 1973 em Alcobaça. Essa discussão decorreu no então Esgoto’s Place, mítico local que cerca de uma década e meia depois se transformaria num dos locais de culto da música nacional, o Bar Ben (Almanzor). Estava-se ainda antes do 25 de Abril em termos nacionais, mas a verdade é que nessa data já a Revolução Portuguesa havia chegado àquele local de Alcobaça onde nos juntávamos para conversar livremente sobre política e outras actividades então reprimidas, tocar música e ouvir tudo o que de novo nos ia chegando do exterior: do rock de vanguarda ao free jazz, além de outros interessantes acontecimentos que não são para aqui chamados…. A discussão que relembro tinha precisamente por tema o recente lançamento do álbum Venham Mais Cinco de José Afonso e como intervenientes dois jovens alcobacenses àquela época claramente seduzidos pelo estalinismo: um como simpatizante do PCP (Partido Comunista Português) e outro como militante da OCMLP (Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa). O primeiro deles mantém ainda hoje as mesmíssimas opções políticas e o segundo é hoje um conhecido militante do PSD, após ter percorrido alguns desvios de ordem trotzquista e centrista. Eu, estava então entre os dois, algo toldado pelo álcool (era então advertidamente seduzido pela loiríssima Sagres), e já então assumira o meu próprio desvio, abandonando a social-democracia e lançando-me nos braços de um subtil trotzquismo que acabaria por posteriormente renegar… Quanto à tal discussão, a sua vítima era precisamente a produção artística de José Afonso, criticada por um deles pela sua opção pelo formalismo e pelo outro pela sua opção pelo surrealismo, evidentes desde Cantigas do Maio. A minha subtil intervenção nesse vibrante debate apenas se deveu à envergonhada defesa de Venham Mais Cinco e de dois temas desse disco, os preciosos A Formiga no Carreiro e Gastão Era Perfeito, atitude que então me valeu uma das primeiras palmadas estalinistas da minha vida e uma forte reprimenda de um dos intervenientes, que elogiava alto e bom som a música de Tino Flores (aquele cantor do Quem Não Teme o Mar Não Teme os Patrões…) evidenciando que essa música é que era directamente compreendida pelos trabalhadores e defendia os seus interesses de classe, enquanto, segundo ele, José Afonso enveredara por um eruditismo que afastara a sua música das massas populares. Felizmente, o futuro acabaria por me dar razão, embora o Tino Flores ainda continue vivinho da costa e a cantar para os amigos… José Alberto Vasco
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-MÚSICAS DA MINHA ESTANTE- 
